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Pantufas

por MC, em 10.12.15

“Estou farto de trabalhos de casa!”, desabafa, as sobrancelhas alterosas, a testa pregueada de arrelias. “É que estou mesmo fartinho! Dos trabalhos, das fichas que nunca mais acabam, da matemática, da escola inteira!” – resmunga num crescendo globalizador, os olhos pestanudos revirados para um Céu muito pouco interventivo.

A mão nodosa, de dedos estropiados pelos anos, acaricia-lhe os cabelos com meiguice. “Então, diga lá à sua bisavó qual é a razão de tanto azedume…”, questiona, com a voz cheia de riso.

“Ó Bisa”, desabafa, com amplo gesto dramático de braços: “já viste há quantas hooooraaaaaas aqui estou a fazer os trabalhos de casa? Já viste? Olha que desde que cheguei a casa! E já é noite escura, estás a ver? Não aguento mais, Bisa!”, lastima-se, com os olhos já rasos de lágrimas.

“Anda cá, senta-te aqui um só um bocadinho ao pé de mim”, propõe-lhe a bisavó. “A não ser que já estejas muito crescido para um colinho…” espicaçou-o.

“Ok, mas só um minutinho”, respondeu, a birra ainda a travar-lhe o sorriso. “E eu que gostava tanto da escola nos primeiros dias! Lembras-te, Bisa? Agora detesto! Ir à escola é horrível, não achas?”

“Não sei, querido. Eu não fui à escola”, foi a resposta tranquila.

“Não foste?!” suspeitou. “Que grande malandreca que tu eras!”

“Não fui, mas tive muita pena. Gostaria tanto de ter podido ir à escola!”

“Não havia escola quando eras pequenina, Bisa?”

“Sim, meu amor. Havia uma escola na aldeia, mas eu não podia ir, porque tinha de trabalhar.”

“Trabalhar?!”, repetiu agastado, suspeitando de marosca. “As crianças não têm empregos!”

“Pois não, querido. Mas naquele tempo era assim: as crianças ajudavam os seus pais e só iam à escola quando podiam.”

“Mas se tu eras pequenina não sabias fazer nada, os crescidos é que sabem trabalhar!”

“Eu conto-te: os meus pais viviam numa quinta longe da aldeia, tinham ovelhas e faziam queijos para vender no mercado. Era preciso levar as ovelhas a pastar nos campos muito cedo, ainda de noite, e eu ia com o meu pai, para o ajudar. Só voltávamos à noite, à hora da ceia. Às vezes, no Inverno, eu tinha muito frio e sono, mas não podia ficar em casa.”

“Tinhas mesmo de ir, Bisa? Eu não gosto de levantar cedo. Um dia nós tivemos de levantar muito de noite para ir a casa do avô Bino e eu não queria ir e fiquei rabugento e o pai levou-me em pijama e pantufas para o carro e também estava muito frio e eu não gostei. Também ias de pantufas guardar as ovelhas, Bisa?”

“Não, meu amor, eu não tinha pantufas”, declarou num sorriso aberto e sereno. “Nem sequer tinha sapatos! Ia descalcinha pelos caminhos, que até me pelava!”

“Descalça, Bisa?!”, questionou, o assombro a bailar-lhe nos olhos. “E não tinhas frio?”

Na memória exaurida correm imagens sincopadas, como numa película velha do cinema mudo: uma menina franzina a dormitar de pé, encostada ao pai, o frio intenso das madrugadas de Inverno, as carnes violáceas e dormentes da geada. “Tinha um bocadinho, tinha.”

“Estás a ver que eu antes queria estar em casa sossegadinha a fazer contas, não estás?” rematou com uma piscadela de olho e um trejeito a apontar para os cadernos abertos na mesa.

“Está bem, já percebi. Vou fazer o resto”, anuiu com um beicinho. A meio caminho travou e voltou-se para trás. Fitou-a com um inesperado olhar adulto e disse-lhe: “Olha, Bisa, quando tu eras pequenina ainda não me conhecias e eu não te podia ajudar, mas isso agora não volta a acontecer – quando tu tiveres frio, dizes-me logo, que eu empresto-te as minhas pantufas do Mickey, ouviste?”

 

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publicado às 19:12


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Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

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